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terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Tratamento das epilepsias resistentes requer persistência de pacientes

Os primeiros registros sobre casos de epilepsia são antigos. O mais velho deles foi descrito em um livro de medicina que remonta a cerca de 2000 a.C. A obra detalha diferentes tipos de ataques de epilepsia, destacando a natureza “sobrenatural” das crises, associadas com nomes de espírito ou deus. Sob essa ótica, o seu tratamento era conduzido pelo prisma espiritual (World Health Organization, 1997).
De lá para cá muito evoluiu a respeito da origem e das manifestações da doença, bem como dos tratamentos, retirando a epilepsia do campo mítico por meio da descoberta de sua ligação com um distúrbio cerebral físico, que gera interferências nos estímulos nervosos e desencadeiam os chamados ataques epilépticos.
Quando as crises são parciais simples, ocorrem sintomas no quesito motor, visual ou apenas mal-estar, sem afetar a consciência. Já as parciais complexas, além de acometerem o controle motor ou visual, ainda geram algum tipo de alteração na consciência. Por último, existe ainda a crise generalizada que, além de afetar o controle motor, gera a perda total da consciência.
Para o neurocirurgião especialista, Dr. Luiz Daniel Cetl, entender os mecanismos da doença que se apresenta sob diferentes características e intensidades de crises, de acordo com seu grau de acometimento, é importante para pacientes e cuidadores compreenderem melhor a condução dos tratamentos. “A medicina não é uma ciência exata e as doenças se apresentam e respondem a tratamentos de formas diferentes, devido a diversos fatores da própria doença e do organismo. Desta forma, é necessário partir de um protocolo inicial que pode requerer diversos ajustes até que se chegue ao melhor resultado possível para cada caso”, explica o médico.
O tratamento convencional da epilepsia é por via medicamentosa, com uso das chamadas drogas antiepilépticas (DAE), eficazes em cerca de 70% dos casos para o controle das crises e com poucos efeitos colaterais. Ainda nestes casos, as dosagens podem ter de ser adequadas em diferentes momentos.

Para os casos refratários, ou seja, persistentes aos medicamentos, pode ser indicada uma terapia auxiliar com a mudança da alimentação: a conhecida dieta cetogênica. O principio dela é a ingestão de alimentos ricos em gorduras, com quantidade baixa de proteínas e pobre em carboidratos, e cuja composição gera um estado de cetose onde o cérebro utiliza corpos cetônicos como principal combustível. Este reação pode somar para a redução das crises epilépticas. Para Dr. Cetl, a efetividade é pequena e possível apenas em crianças.
Se ainda assim o paciente sofrer de crises frequentes, é possivel indicar procedimentos operaratórios de acordo com o perfil da doença:

- Cirurgia ressectiva: indicada para casos em que se sabe o foco cerebral das descargas que ocasionam as crises epiléticas e onde é possível atuar na remoção por completo da zona epiléptogênica. É o único procedimento onde é possível obter o controle completo das crises convulsivas.

- Cirurgia desconectiva: quando a origem da descarga é de apenas de um lado da cabeça, é realizada a separação entre os dois hemisférios para que as descargas não passem de um lado para o outro. Neste caso, diminui-se a frequência e intensidade das crises.

- Cirurgia de neuromodulação: tem a estimulação do nervo vago como uma importante escolha, onde um estimulador ligado por um marca-passo, localizado na região da clavícula, gera impulsos elétricos ininterruptos para um eletrodo posicionado no nervo vago. Estes sinais são replicados para o cérebro, interferindo na frequência das crises epiléticas, bem como no humor e na atenção dos pacientes também.

“São procedimentos seguros, bem tolerados e com boas respostas, que serão indicados pelo médico responsável pelo paciente mediante o esgotamento das terapias anteriores e do grau de comprometimento da sua qualidade de vida diante da frequência e intensidade de crises”, explica o neurocirurgião, que ainda complementa: “Enquanto falamos de tratamentos apenas de sintomas e não de causas, não podemos falar em cura da epilepsia, mas sempre é possível melhorar as condições das crises, tornando-as mais espaçadas, menos intensas e, em alguns casos, inertes por anos”.

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